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Faltam Padres ou falta espírito missionário?

Faltam Padres ou falta espírito missionário?

O número de padres no mundo

 Em 2001 existiam 405.067 presbíteros em todo o mundo. Isso significa uma média de 1 (um) padre para cada 15.139 habitantes do planeta. Se considerarmos apenas o número de católicos, temos 1 (um) padre para cada 2.619 fiéis. Relacionando o número de padres com o número de bispos existentes, teríamos para cada bispo uma média de 87,10 presbíteros. Tendo presente o fato de que não mais de 10% dos católicos são praticantes, podemos concluir que existe 1 (um) padre para cada 261,9 católicos praticantes.

Vemos então que o número de padres não é assim tão pequeno como se costuma alardear por aí, especialmente naquele tipo de atividade vocacional da Igreja identificado exclusivamente com a promoção da vocação do presbítero e no qual o Serviço de Animação Vocacional é confundido com “Obra das Vocações Sacerdotais” (OVS). A média mundial se apresenta bastante equilibrada. Não existem razões para desespero e nem para tanta obsessão.

O que estaria acontecendo então? Acredito que o problema não está na falta de padres, mas na falta de espírito missionário. Esta falta de espírito missionário se encontra não apenas nos padres, mas principalmente nos bispos, os quais não preparam os seus presbitérios para o serviço ministerial, lá onde há mais urgência e mais necessidade. Isso leva à concentração de presbíteros em algumas regiões, especialmente nas mais ricas, deixando outras áreas, particularmente as mais pobres, desprovidas da presença de ministros ordenados.

Os números fornecidos pela própria direção da Igreja Católica colocam em evidência essa realidade. Eles provam que não é suficiente apenas incentivar e promover a vocação do padre. É preciso, com muita urgência, criar nos presbíteros e nos seminaristas a sensibilidade para o serviço missionário. Se não fizermos isso, poderemos até chegar a um número bem maior de padres, mas regiões inteiras continuarão abandonadas e centenas de milhares de comunidades católicas permanecerão privadas da presença de um ministro ordenado.    

A raiz do problema

 O problema da falta de pastores é tão antigo como a própria Igreja. O próprio Jesus já tinha percebido isso quando, olhando para as multidões, ficou tomado de compaixão porque viu que elas “estavam exaustas e prostradas como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36).

Por essa razão deixou a seguinte recomendação: “A messe é abundante, mas os operários, pouco numerosos; pedi, pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe” (Mt 9,37-38). Certamente os operários aos quais Jesus se refere não são apenas os padres, mas todos os evangelizadores e todas as evangelizadoras dos quais a Igreja necessita para fazer chegar a toda a humanidade a Boa Notícia, o Evangelho. Mas os padres também estão incluídos nesta lista e, enquanto ministros que presidem e animam as comunidades, possuem uma missão sumamente importante.

Uma análise mais criteriosa desse texto e do paralelo encontrado em Lucas (Lc 10,1-20) nos mostra com clareza que para Jesus o problema não está na falta de pastores, mas na falta de operários, ou seja, de gente que queira ir pelas cidades e povoados, pelas aldeias e demais localidades. No tempo de Jesus, a Palestina estava infestada de sacerdotes, levitas, escribas, fariseus, doutores da lei, mas faltava quem tivesse compaixão do povo e quem fosse ao encontro dele para “curar as suas doenças e enfermidades” (Mt 10,1).

Aliás, voltando um pouco mais no tempo, podemos constatar que os profetas da Primeira Aliança já denunciaram uma situação semelhante. Eles acusavam os pastores que “apascentavam a si mesmos” (Jr 34,2) e não cuidavam da comunidade, especialmente das pessoas mais sofridas. O oráculo de Ezequiel é dirigido aos governantes do povo, mas tinha também como destinatários os chefes religiosos, mesmo porque era praticamente impossível, para a mentalidade judaica da época, pensar as duas coisas de forma separada.

Na Igreja o problema apareceu muito cedo. No século VI o papa São Gregório Magno já lamentava a falta de operários para a messe. Mas dizia igualmente que o problema não estava na falta de ministros ordenados, mas no pouco espírito missionário dos mesmos. Havia muitos padres, sim, mas poucos dedicados e doados pela causa do Reino. Em uma de suas homilias São Gregório advertia: “Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; porque aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício”.

A questão, pois, é muito antiga. Não faltam padres, mas, como nos lembra são Gregório falta paixão pelo Reino. O ministério é visto apenas como status, privilégio, meio de fazer carreira e de resolver situações pessoais, como profissão rentável. Por isso muitos aceitam serem ordenados, mas somente um número pequeno se dispõe a “cumprir o dever do ofício”, ou seja, a servir o Povo de Deus lá onde realmente ele precisa.

Alguns exemplos ilustrativos

Quem acompanha de perto a vida da nossa Igreja conhece situações em que é bem visível essa realidade e começa a entender que o problema não está na falta de padres, mas na falta de espírito missionário dos presbíteros.

Uma primeira constatação pode ser feita a partir do Anuário da Igreja Católica no Brasil. Ali é possível verificar a grande concentração de padres nas grandes cidades, especialmente nas capitais, de modo particular aquelas litorâneas. O interior do país, sobretudo as pequenas cidades, os lugares mais afastados e pobres, ficam completamente esquecidos. Se olharmos atentamente as próprias capitais, vamos notar que a maioria dos padres está no centro das cidades, ou seja, nos bairros mais abastados, onde a vida é mais fácil. As periferias, mesmo com população mais numerosa, dispõem de um número menor de padres.

Conheço o caso de algumas dioceses que não sabem o que fazer com os seus padres. O número de presbíteros já é maior do que o número de paróquias. Os padres não aceitam trabalhar juntos numa mesma paróquia. Querem que o bispo crie paróquias novas para que cada um tenha o seu “feudo” e com todos os “acessórios indispensáveis”: casa, carro, telefone, telefone celular, computador, Internet, salário, funcionários e assim por diante. Quando é feita a proposta de uma paróquia na periferia, mas sem todas essas mordomias, a recusa é imediata.

Em certas arquidioceses, as paróquias de periferia estão completamente abandonadas. Em algumas delas os párocos não moram no local, mas em bairros mais “chiques”, porque não fica bem o padre morar nesses lugares! O povo vê a cara do pároco somente nos finais de semana e em algumas ocasiões especiais. Em outras, há missa somente de vez em quando, pois não há padres para celebrar nelas. Enquanto isso, nas paróquias do centro, onde as pessoas têm seus carros e podem se locomover com mais facilidade, são celebradas até cinco ou seis missas no domingo.

Em nível mundial, todos conhecemos a corrida dos padres dos países pobres para os países mais ricos, situados no norte do planeta. Muitos padres do hemisfério sul, particularmente da Ásia e da África, sonham ir para a Europa Ocidental e para a América do Norte. Lá chegando, não querem voltar mais para os seus países de origem. A situação estava ficando tão grave que, em 2002, a própria Santa Sé teve que intervir, proibindo os bispos dos países ricos de receberem padres dos países pobres sem prévio entendimento com o bispo da diocese de origem dos presbíteros.

Muitos bispos, especialmente das dioceses mais abastadas, são poucos sensíveis às necessidades das Igrejas mais pobres. Ficam fazendo as contas, reclamando a falta de padres. Não são capazes de despertar a consciência missionária em seus presbitérios. Lembro-me do caso de um bispo de uma diocese pobre do Nordeste, que sentindo a escassez de presbíteros de sua Igreja, dirigiu-se a um seu colega de uma diocese do Sul do país, bem servida de padres.

Diante do pedido do seu irmão nordestino, o bispo sulista recitou uma longa ladainha de lamentos, tentando provar que não tinha como oferecer um padre para a outra diocese irmã. O bispo do Nordeste concluiu sua conversa com o seguinte desabafo, ainda que revestido de santa ironia: “Fiquei com tanta pena do coitadinho que quase lhe oferecia um padre da minha pobre diocese para ajudar a resolver a sua penúria!”.

Se dermos uma olhada na vida consagrada, percebemos que há também alguma coisa errada. A pesquisa da CRB, feita em 1997 e publicada em 1998, traz alguns dados que são bastante significativos.

 Ela mostra, por exemplo, que há mais religiosas e mais religiosos nascidos no Nordeste morando no Sudeste do que no próprio Nordeste.

O levantamento da CRB diz que 14,6% dos religiosos e 11,6% das religiosas afirmam ter nascido no Nordeste. Mas somente 10,6% dos religiosos e 8,9% das religiosas declararam que viviam naquela ocasião no Nordeste. Isso fica mais evidente quando tomamos os dados do próprio Sudeste.

Cerca de 35,2% dos religiosos e 32,8% das religiosas afirmavam ter nascido no Sudeste. No entanto, 44,2% dos religiosos e 39,4% das religiosas disseram que estavam morando no Sudeste. Porém, o Sul se apresentou como uma região com bastante consciência missionária.

De fato, 45,5% dos religiosos e 47,9% das religiosas declaram ter nascido nesta região. Mas somente 23,3% dos religiosos e 39,0% das religiosas dizem estar morando na região Sul do Brasil. Todavia, sabe-se que as vocações ali estão em declínio e é bem provável que daqui a alguns anos, o Sul esteja povoado de religiosos e religiosas vindos de regiões mais pobres do país.

Retomar a proposta do Vaticano II

Durante o Concílio Vaticano II esta questão foi, por diversas vezes, levantada e debatida. No final do Concílio ficaram algumas propostas bastante significativas. Elas, porém, parece que foram completamente esquecidas, salvo honrosas e beneméritas exceções. Por essa razão considero urgente retomar alguns desses elementos.

O Vaticano II insistiu sobre a necessidade de uma melhor distribuição dos padres. Pediu que os presbíteros cultivassem uma solicitude por todas as Igrejas. Sugeriu que as dioceses com maior número de padres oferecessem, com prazer, presbíteros para as regiões mais carentes de ministros ordenados.

Nesta iniciativa o bispo não só deve permitir, mas encorajar os padres para a missão. Para tanto, pedia o Concílio, devem-se rever as normas de incardinação, de modo que elas correspondam às necessidades da Igreja do nosso tempo e favoreçam uma adequada distribuição dos presbíteros.

Recordando que os presbíteros devem buscar servir ao bem de toda a Igreja, evitando a dispersão de forças (cf. LG, 28), o Vaticano II insistiu muito sobre o dever missionário dos presbíteros. O serviço da missão não é um acessório na vida do padre, mas elemento fundamental do seu ministério. Por isso, tanto nos seminários como nas faculdades de teologia, será necessário fomentar a consciência missionária (cf. AG, 39).

Os bispos, por sua vez, são chamados a preparar e enviar presbíteros para as regiões mais carentes, para que ali eles exerçam o sagrado ministério de forma definitiva ou ao menos por um tempo determinado. Eles devem considerar não só as necessidades de sua diocese, mas também as das outras Igrejas particulares, pois estas são expressão da mesma e única Igreja de Jesus. Para tanto devem buscar aliviar ao máximo os sofrimentos das dioceses mais carentes de presbíteros .

No que diz respeito à vida consagrada, o Concílio foi bastante preciso. Essa, de fato, precisa ter “um espírito e trabalho realmente católico” (cf. AG, 40). Não deve voltar-se apenas para os interesses do próprio grupo. Com determinação o Vaticano II convidou a vida consagrada a se interrogar com sinceridade, diante de Deus, sobre a possibilidade de deixar algumas atividades para se comprometer com o serviço nos lugares de missão, com novas atividades missionárias. A vida consagrada precisa avaliar se realmente está participando com todas as forças da atividade missionária da Igreja.

No âmbito da Igreja latino-americana, a Conferência de Puebla (1979) convidava as Igrejas locais a se projetarem além de suas próprias fronteiras, dando da própria pobreza. Na atividade vocacional deve-se despertar, promover e orientar vocações missionárias.

Conclusão
São Francisco Xavier, grande missionário jesuíta do século XVI, considerando a realidade da sua época, lançou então um grande desafio. Escrevendo a Santo Inácio de Loyola ele manifestava o seu desejo de sacudir as consciências daqueles que “têm mais ciência do que caridade”. Queria sair pelas academias da Europa, gritando como um louco e mostrando a responsabilidade que aquela gente acomodada tinha diante das carências da evangelização.

Hoje continuamos a sentir a ausência de profetas que denunciem a omissão e a acomodação de determinadas Igrejas, de certos bispos e de muitos padres. Precisamos gritar bem alto que não basta fazer propaganda vocacional e insistir obsessivamente na falta de padres. Precisamos ter a coragem de dizer que em muitos lugares eles já sobram. O que falta mesmo é o ardor missionário, a paixão pelo Reino e o carinho pelos mais pobres. Faltam em muitos padres o espírito de serviço e o zelo do Bom Pastor, daquele que dá a vida pelas pessoas.

Precisamos denunciar um certo tipo de propaganda vocacional que apresenta o ministério do padre como status e privilégio. Temos que combater aquele tipo de propaganda vocacional que se baseia na apresentação de vantagens. Aquela que apresenta o campo de futebol, a churrasqueira, a piscina, o grande seminário, o quarto bem mobiliado, o microônibus para conduzir o pessoal, a promessa de estudar em Roma, de ser ordenado pelo papa... Este tipo de marketing vocacional só atrai pessoas acomodadas e não gente disposta a ser enviada em missão.

Se este material vocacional continuar sendo elaborado e divulgado, se essa mentalidade continuar prevalecendo, vamos ter, sim, um mundo “cheio de padres”, mas raramente vamos ver “um operário na messe de Deus”. Tudo como no tempo de São Gregório Magno. O povo vai continuar sem pastores!

O folder vocacional – se é que ele tem que existir – deveria conter apenas uma coisa: a imagem das multidões abandonadas, pobres, sem ninguém para olhar por elas. Nele deveria aparecer somente a figura daquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mc 10,45). O lema deveria ser o seguinte: “Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim” (Mc 1,38).

Este tipo de propaganda vocacional afastaria de imediato os que querem se instalar e se acomodar. Não abriria espaço para os “consumidores” de privilégios e status sacerdotais e nem para os aproveitadores. Mas certamente atrairia gente mais corajosa e mais disposta a seguir Jesus, o “andante” (Mc 1,39) e peregrino do Pai, que caminhava sempre na direção dos excluídos e excluídas.

 Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, SDV nasceu em 1956, natural de Araci (BA). Consagrado presbítero da Sociedade Divinas Vocações (Vocacionistas), doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), autor de vários livros e dezenas de artigos sobre a temática vocacional, Diretor-Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), Coordenador de Redação da revista “Espírito”. Foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB no período 1999-2003.





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